Se Eu Fosse Um Livro

Sentavas-te comigo à mesa de um café e, enquanto escolhias um chá de menta, resvalavas devagarinho os teus dedos sobre a minha contracapa. O empregado, curioso, a espreitar-me a lombada, enquanto te trazia uma torrada com manteiga e doce de morango. Abrias-me, mergulhavas o nariz dentro do papel e durante muito tempo esquecias-te dos semáforos da avenida, do barulho das colheres contra as chávenas, das buzinas, da gaveta ruidosa da máquina registadora, dos doces com creme e chocolate e das mulheres fumadoras enroladas no fumo e no frio, lá fora. Pousavas os dedos em cada página, que viravas depressa, com força, à procura da palavra seguinte. Mais tarde, deixavas-me em cima da mesa e eu, já numa prateleira fria com cheiro a canela, esperava - as marcas dos teus dedos no canto dobrado da página 179. Dias depois vinhas procurar-me, mas ninguém sabia nada de mim.

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